Há cerca de 2200 anos, na antiga cidade de Hierápolis – hoje localizada na Turquia – um temido santuário foi erguido pelos Romanos, o qual era tido como a entrada literal para o Submundo (o Mundo dos Mortos). Esse portal (uma antecâmara) foi construído exatamente em cima de uma grande fissura que continuamente emite uma estranha névoa quando o ambiente está mais frio, ficando conhecido como ‘Plutonium’, em homenagem a Pluto, o Deus do Submundo.

Mas o local não foi escolhido ao acaso pelos antigos Romanos. Ali, rituais sinistros eram feitos, onde touros, pássaros e outros animais eram introduzidos na entrada da antecâmara- a qual refletia os Portões do Submundo – para logo em seguida morrerem de forma agonizante sem aparente causa. Para deixar a situação ainda mais sobrenatural, sacerdotes castrados que acompanhavam esses animais para serem sacrificados voltavam da antecâmara completamente sãos e salvos! E tudo isso sendo testemunhado pelos presentes que acompanhavam essas cerimônias, sem chance de encenação, segundo descrevem antigos registros históricos.

Até pouco tempo atrás, pesquisadores acreditavam que esses registros históricos estavam apenas exagerando na descrição desses rituais. Mas agora um novo estudo publicado na Archaeological and Anthropological Sciences (Ref.1) mostrou que não havia exagero nenhum, apesar dos rituais não terem nada de sobrenatural, mas, sim, uma base puramente geológica.

MUNDO DOS MORTOS

O Reino de Hades – ou o Submundo – na mitologia grega, é a terra dos mortos, o local para onde a alma das pessoas estariam indo após a morte (depois de serem separadas do corpo físico). Nesse local – governado pelo Deus Hades (ou Pluto para os Romanos) – as almas passariam por um julgamento, onde seu destino seria decidido. De acordo com a sentença do julgamento, as almas poderiam ser enviadas para três regiões bem distintas: o Tártaro, os Campos Elísios ou o Campo de Asfódelos.

De acordo com os épicos Homéricos, o Deus Hades era irmão de Zeus e Poseidon. No Submundo, Hades reinava junto à sua esposa, Perséfone, Deusa das Ervas, Flores, Frutos e Perfumes (Kero, em latim), e filha de Zeus e da sua irmã Deméter, a Deusa da Agricultura. Os três irmãos – Zeus, Hades e Poseidon – dividiram, em uma espécie de sorteio, suas esferas de influência em relação aos três reinos: terra e céu, o mar e o elemento água, e os domínios dos mortos. Hades acabou ficando com o Submundo e eventualmente exigiu também uma companheira, no caso, pediu a Zeus sua filha, Perséfone. Segundo os registros de Ovid em Metamorphoses, Hades estava olhando Perséfone pegar flores em uma campina quando foi atingido por uma das flechas do Cupido e se apaixonou por ela. O Deus do Submundo então sequestrou Perséfone, levando-a para o seu reino em uma biga puxada por cavalos negros. Tal foi a fúria e revolta de Perséfone, que ficou decidido mais tarde que ela seria permitida de retornar à Terra (Mundo dos Vivos) em todas as estações do ano exceto no inverno.

O Submundo – o sombrio, pútrido mundo das almas – estava localizado abaixo da superfície da Terra, onde os raios solares não conseguem penetrar. Homero descreve as almas como sombras que possuíam apenas o contorno dos seus antigos corpos, mas sem substância física e, geralmente, sem memória. A única forma para essas sombras se lembrarem das suas vidas na superfície era através da ingestão de sangue, como descrito em Odisseia. Os mortos que não eram enterrados eram proibidos de entrarem no Submundo e, portanto, vagavam entre os dois mundos.

Um dos poucos Deuses do Olimpo que podiam entrar no Submundo era Hermes, um Deus que possuía diversos atributos, incluindo o status de ‘transportador de almas’. Outra divindade que pode ser citada é Hecate, o qual ajudou Deméter na busca por sua filha no Submundo, se tornando também companheiro inseparável de Perséfone. Segundo a mitologia, também existiam alguns mortais capazes de atravessar vivos o Submundo, como Hércules, em sua missão de roubar e guiar para fora de Hades o cão de três cabeças que guardava sua entrada, Cérbero; Odisseu, ao perguntar Teiresias pelo caminho de Ítaca; e Orfeu, para trazer de volta sua esposa Euridice.

PORTÕES DO SUBMUNDO

Redescoberta há 7 anos por arqueólogos, uma construção de pedra na forma de antecâmara servindo de uma porta de entrada para uma gruta na antiga cidade de Hierápolis – hoje chamada Pamukkale, na Turquia – revelou ser a representação real dos Portões do Submundo para os antigos Romanos, onde rituais e cerimônias eram realizadas sob os olhares de uma impressionada plateia.

Junto à antecâmara – composta de semi-colunas com inscrições em seu topo trazendo uma dedicatória às dividades do Submundo (Hades e Perséfone) -, existia uma ampla área de ruínas abandonadas e danificadas, possivelmente o resultado de terremotos e ataques de Cristãos. Acima da misteriosa gruta, existiam degraus, onde as pessoas se sentavam e podiam assistir aos rituais sagrados, mas proibidas de entrar na área próxima do Plutonium, sendo que apenas sacerdotes possuíam tal permissão.

Mas o mais interessante é que aquela não era uma gruta qualquer, tendo mais do que o mérito de ser escolhida como a entrada de Hades. Da sua abertura saía uma estranha e letal névoa (visível quando o ambiente estava frio), e com propriedades que, na época, só poderiam ser explicadas por causas sobrenaturais. As cerimônias ali realizadas incluíam levar touros e bodes para dentro da gruta – guiados por sacerdotes eunucos de Cibele, Deusa da Fertilidade – para que fossem sacrificados pelo estranho poder ali presente. Os animais mostravam sinais de sufocação e morriam após alguns minutos, enquanto os sacerdotes ficavam juntos ao agonizante animal sem sofrerem quaisquer danos ou demonstrarem sinais de sofrimento.

De tão fascinante, o local virou até atração turística na época, onde peregrinos recebiam pequenos pássaros para testar os letais efeitos da gruta (arremessavam as aves para perto, vendo-as morrerem logo em seguida) e não mais duvidarem que aquela era a entrada do Mundos dos Mortos (também eram atraídos pelas sagradas fontes termais e para terem visões e profecias geradas pelos gases que eram emanados na área).

O local era totalmente funcional até o século IV d.C., e ocasionalmente visitado durante os dois séculos seguintes, e serviu como um importante destino de peregrinarem para os últimos intelectuais pagãos da Antiguidade Tardia.

QUAL ERA O SEGREDO DO SANTUÁRIO?

Após a descoberta dos Portões do Submundo, os pesquisadores logo entenderam o que tornava o local tão letal: enormes emissões de dióxido de carbono sendo desprendidas e originárias de estruturas sísmicas ativas que atravessam a antiga cidade de Hierápolis. Durante as escavações, e reabertura da gruta, pássaros que se aproximavam da aquecida entrada caíam quase que instantaneamente e morriam logo em seguida, por asfixia. Porém, o que ainda continuava um mistério era como os eunucos sobreviviam em meio à mortal névoa. Nesse sentido, alguns especialistas levantaram a possibilidade dos registros históricos terem exagerado nessa parte dos relatos por motivos culturais e religiosos.

Análises científicas em anos recentes revelaram que concentrações mortais de até 91% de CO2 eram encontradas na gruta na Antiguidade. E mesmo hoje as concentrações são altas o suficiente para matar insetos, pássaros e mamíferos em instantes ou, no máximo, em poucos minutos. À noite, esses vapores alcançam concentrações de CO2 suficientes para matar um ser humano dentro de 1 minuto.

Vários locais sagrados, oráculos e templos similares, Romanos e Gregos, também eram localizados diretamente acima ou próximos de zonas geológicas de distúrbio. O famoso Oráculo de Delfos, por exemplo, localizado nas encostas do Monte Parnaso – foi construído sobre a interseção de duas zonas de fraturas onde ou emissões de metano/etileno ou emissões de um ar hipóxico devido à grande presença de metano ou CO2 permitiam que Pítia – a sacerdotisa do templo de Apolo, em Delfos – pudesse realizar suas profecias (via alteração do estado de consciência). Porém, o caso dos Portões do Submundo chama bastante atenção pela possibilidade dos sacerdotes terem realmente “poderes” de resistência para executar cerimônias no interior da antecâmera com segurança.

Agora, em um estudo publicado na Archaeological and Anthropological Sciences, pesquisadores parecem ter conseguido elucidar esse mistério, e corroborando as observações de Plinius e Strabos. Para isso, foram feitas diversas medidas, em diversas condições microclimáticas e em diferentes horários do dia, da composição química dos gases localizados tanto no interior da gruta quanto na parte exterior, onde ficava localizado a antecâmara de sacrifícios e cerimônias.

No interior da gruta, as concentrações de CO2 eram sempre muito altas, alcançando 74% em todos os pontos e, devido à mistura de pequenas quantidades de ar atmosférico exterior, um pouco de oxigênio (6-2%) era encontrado e o resto correspondendo a nitrogênio. Pelo fato do interior da gruta estar protegido dos raios solares e outras adversidades climáticas do exterior, seu ambiente é sempre mortal para qualquer ser vivo que dependa de oxigênio. Porém, na câmara onde os sacrifícios aconteciam, a situação era bem diferente.

No chão do santuário – a antecâmara fora da gruta, e cercada de paredes – os vapores altamente tóxicos emitidos pela gruta eram prevenidos de se dispersarem rapidamente, mantendo a presença de uma contínua superfície com altas concentrações de CO2 durante o dia inteiro. Como o CO2 é 1,5 vezes mais pesado que o ar atmosférico (mistura total), o gás escapando da gruta formava um lago no chão. Dependendo das condições atmosféricas e microclimáticas, as concentrações de CO2 nesse lago podem variar bastante, marcando um ambiente mortal apenas se não houvesse direta incidência de radiação solar ou de fortes movimentos de ar. Os raios solares aquecem o dióxido de carbono rapidamente (devido às absorções no infravermelho), fazendo o gás ficar menos denso e se misturar de forma mais homogênea com o ar atmosférico e escapar mais facilmente da antecãmara. Já correntes de ar fazem com que o CO2 se disperse mais, diminuindo a ação tóxica do ar ali.

Nesse sentido, duas coisas já ficam claras com o novo estudo: as cerimônias de sacrifícios provavelmente eram feitas à noite ou ao amanhecer, e apenas em condições temporais tranquilas. Mas e o poder divino dos sacerdotes eunucos nessas horas de sacrifícios? Segundo os relatos, eles ficavam juntos aos fortes e saudáveis touros em agonia e processo de morte sem sofrerem nenhum dano ou expressarem quaisquer sintomas aparentes de intoxicação.

Bem, e é aqui que vem a segunda descoberta do novo estudo. No interior da câmara, o lago de CO2 alcança valores médios de 57% no seu fundo, porém, à medida que a altura aumenta ali, a quantidade desse gás diminui drasticamente, alcançando valores de até 4%. No amanhecer era o horário mais mortal, onde na altura de 40 cm as concentrações de CO2 ainda chegavam a 35%. Os pequenos animais, como pássaros ou insetos, que se aventuram nesse lago acabam morrendo rapidamente porque ficam muito próximos do chão. Já os touros e bodes, apesar de serem muito maiores e corpulentos, também acabavam morrendo durante os sacrifícios porque a cabeça desses animais (boca e narinas) ficam naturalmente próximas do chão, devido à anatomia dos seus corpos, entre uma altura de 60 e 90 cm. E à medida que ficavam com tontura pela inalação da mistura tóxica de gases, suas cabeças deviam abaixar ainda mais, alcançando alturas letais e acelerando o processo de morte.

Por outro lado, os sacerdotes que os acompanhavam eram bem mais altos, e ficavam com suas cabeças bem acima das camadas de alta concentração de CO2. É também reportado que eles às vezes usavam elevações de pedra, deixando-os ainda mais altos (mesmo concentrações de 3 a 4% de dióxido de carbono já disparam reações no corpo devido à elevação de acidez na circulação sanguínea, e, portanto, quanto mais se evitava a inalação desse gás, menos indícios de intoxicação eram notados). Assim, ficavam livres para falar e se moverem livremente para a realização dos rituais sem sofrerem nenhum dano.

Assim, com a plateia vendo poderosos e fortes touros morrendo rapidamente e nada acontecendo com os sacerdotes, a única explicação plausível na época era que aquilo realmente estava indicando algo sobrenatural e a real entrada para o Mundo dos Mortos. Os sacerdotes provavelmente sabiam que era letal as alturas inferiores da antecâmara, por estarem sempre interagindo com o local – enquanto o resto das pessoas eram proibidas de entrar no santuário. Também é provável que, para aumentar ainda mais a impressão dos seus supostos poderes divinos, eles usavam horários no meio do dia (ensolarados) e de ar agitado para realizarem diversas demonstrações de sobrevivência dentro da câmara (bem mais inofensiva nessas circunstâncias), conseguindo até mesmo se aventurarem dentro da gruta (de fato “entrando” no Submundo) ao prender a respiração por um breve período de tempo.

CONCLUSÃO

Na Antiguidade, sem sombra de dúvidas, os Portões de Hades em Hierápolis traziam grande temor para as pessoas que testemunhavam as cerimônias e rituais ali executados. Nenhuma ferramenta científica há mais de 2 mil anos conseguiria explicar o que estaria acontecendo de fato no santuário (aliás, até existem relatos mais céticos da época de tentativas de explicação, como o uso de antídotos pelos sacerdotes e efeitos biológicos da castração). Agora, sabemos que o verdadeiro responsável pelos supostos eventos sobrenaturais no local eram gerados pela dinâmica do dióxido de carbono sendo emanado.

Outros locais na Grécia-Roma antiga também considerados Portões do Submundo podem ter funcionado sob o mesmo esquema. Aliás, com o novo esclarecimento geológico, é possível que análises físico-químicas de outros lugares suspeitos de guardarem santuários de Hades possam ser encontrados mais facilmente, especialmente um citado em relatos antigos também localizado na Turquia, e conhecido como Akaraka.


Fonte: Saber Atualizado