Desde 2013, grupos rivais vêm lutando entre si de forma sanguinária na República Centro-Africana. Nesse caos, os professores (profissionais) vêm cada vez mais e mais desaparecendo, e os próprios pais das crianças, em desespero estão tentando substitui-los para não deixarem seus filhos sem educação, incentivados também por programas de incentivos da ONU.

Décadas de negligência e quatro anos de recente e profunda guerra fizeram com que praticamente todos os sistemas de utilidade pública fossem sendo degradados e desfalecidos nesse país africano, incluindo governos locais, hospitais, clínicas, estações de polícia e, agora, o sistema nacional de educação. A ONU estima que 2,3 milhões de pessoas – metade da população – são dependentes de ajuda, em uma situação só não pior do que a vista no Iémen.

Grupos armados estão lutando ao longo de 80% do território do país. Eles frequentemente usam prédios e outras instalações de escolas como campos de abastecimento e pontos estratégicos, parquinhos como bases de tiros, e mesas e cadeiras como lenha para fogo. Mais de um milhão de pessoas já foram forçadas a fugirem dos seus lares por causa dos conflitos, e milhares já foram mortos.

O camponês Apollinaire Zaoro sabe bem uma coisa ou outra sobre plantação. Enquanto ele planta milho e mandioca em sua terra, ele aproveita para ensinar técnicas de plantio para os mais jovens e outros conhecimentos básicos diversos, já que os professores em sua vila – a 25 km da capital – não possui professores qualificados. O senhor, que já possui 58 anos, já está fazendo isso nos últimos 3 meses

A maioria dos professores qualificados, incapazes de coletar seus salários dos bancos por causa da inexistência atual dessas instituições financeiras fora da capital, abandonaram suas posições de ensino.

A República Centro-Africana entrou em guerra a partir de 2013 depois que o Presidente François Bozize, um Cristão, foi tirado do poder pelos rebeldes muçulmanos Seleka. Isso levou a uma sangrenta retaliação promovida pelo Anti-Balaka, outro grupo religioso considerado terrorista.

O Anti-Balaka frequentemente se descreve como Cristão, mas seus membros são combatentes que usam amuletos que alegadamente estariam protegendo-os das balas disparadas pelas Kalashnikovs – chamados de “anti-balas-AK”, em Francês.

As forças da ONU, essencialmente, controlam apenas a capital, Bangui, mantendo estável o governo eleito de Faustin-Archange Touadera. No resto do país, os grupos Seleka e o Anti-Balaka mantêm violentos encontros de forma descontrolada. Ambos lutam para manter o monopólio de estradas e recursos naturais do país, como ouro, diamantes e espaços para a criação de gado.

Cerca de 13 mil soldados da ONU foram mandados para o país, com um custo de $900 milhões por ano, sob a bandeira de uma missão conhecida como Minusca

Já são mais de 8 mil pais – a maioria deles apenas com conhecimentos muito básicos na função de ensino – recrutados para preencher o lugar de professores ausentes, e todos eles ainda precisam serem treinados. Mesmo assim, seriam necessários 14 mil pais voluntários no total para dar conta preencher minimamente o vácuo educacional em vários pontos do país. E a situação só piora dia após dia.

A ONU ajuda os voluntários com cerca de $65 por mês, através da Unicef, para quem está disposto a dar 4 aulas de 7 da manhã até 4 da tarde toda semana. Mas muitos pais voluntários não estão indo dar aulas visando o dinheiro extra e, sim, por estarem realmente preocupados com o futuro dos seus filhos em um país já desolado pelo descaso e violência.

Referências:

1.  BBC

2. ONU